Filho de colonos que chegaram a Roraima em 1984 em busca de novas oportunidades, o produtor rural José Carlos cresceu próximo da realidade do campo e acabou retornando às atividades rurais anos depois. Técnico agrícola e formado em Agronomia, ele começou a trabalhar com piscicultura em 2010, inicialmente por meio de parcerias e áreas arrendadas. Em 2019, comprou a propriedade onde hoje está instalada a Fazenda Peixópolis, em Alto Alegre. A área, que estava degradada e havia passado anos abandonada, deu lugar a uma estrutura especializada na criação de peixes que atualmente produz cerca de mil toneladas por ano e mantém aproximadamente 15 empregos diretos.
A escolha da propriedade, segundo José Carlos, não aconteceu por acaso. O local reunia três condições consideradas importantes para o projeto que ele pretendia desenvolver, acesso pela estrada, margem de rio e disponibilidade de energia trifásica. A ideia, desde a compra, era transformar a área em uma estrutura voltada integralmente para a piscicultura.
Quando adquiriu o imóvel, porém, ainda havia uma série de etapas a serem resolvidas antes do início da produção. De acordo com o produtor, a área não tinha documentação regularizada e apresentava pendências ambientais. Além disso, o local era formado por uma pastagem degradada que estava abandonada havia cerca de três ou quatro anos.
José Carlos começou então pelo processo de regularização fundiária e, posteriormente, pelas questões ambientais. Com as etapas encaminhadas, iniciou a implantação da estrutura necessária para a produção. Segundo ele, praticamente toda a fazenda foi construída a partir desse processo, incluindo cercas, viveiros, rede elétrica e estradas internas.
“Eu construí tudo lá. Desde a cerca, os tanques, a rede elétrica, as estradas internas. Tudo foi sendo feito para transformar aquela área em uma propriedade realmente voltada para a piscicultura”, explicou.
A Fazenda Peixópolis passou a ser dedicada à criação de peixes, com o tambaqui como principal espécie produzida comercialmente. Matrinxã, pirarucu e curimba também fazem parte da criação, mas, atualmente, não são comercializados pela propriedade.
O produtor explica que a intenção é continuar ampliando a estrutura de forma planejada. Entre os projetos está a implantação de um laboratório voltado à atividade e, futuramente, a possibilidade de integrar a piscicultura com outras produções. Uma das ideias estudadas é aproveitar a água dos viveiros, rica em nutrientes, para o cultivo de frutas ou macaxeira.
A produção da Fazenda Peixópolis é totalmente mecanizada. Conforme explicou José Carlos, nenhuma etapa da atividade é feita manualmente, e a propriedade utiliza ferramentas de gestão para acompanhar os processos da criação. A fazenda também passou a utilizar um software específico para o gerenciamento da piscicultura e, mais recentemente, implantou uma ferramenta voltada ao bem-estar animal.
A retirada dos peixes ocorre conforme a demanda do mercado e o planejamento das vendas. Em alguns períodos, a propriedade realiza uma despesca por mês. Em outros, pode fazer duas ou passar até dois meses sem realizar uma nova retirada, dependendo da programação comercial.
Para chegar aos índices atuais de produção, José Carlos também passou a testar diferentes formas de manejo. Segundo ele, alguns dos resultados alcançados na propriedade foram obtidos a partir de experimentações realizadas na própria fazenda, inclusive com densidades de criação diferentes das indicadas em parte da literatura técnica.
No caso do tambaqui de até um quilo, ele afirma conseguir chegar a uma produção de até 40 toneladas por hectare. Na fase de engorda, os índices citados pelo produtor chegam a aproximadamente 15 toneladas por hectare para peixes de até 3,5 quilos e entre 20 e 25 toneladas por hectare para animais de até 2,5 quilos.
Apesar dos resultados alcançados, José Carlos considera que a atividade ainda está em uma fase de consolidação. A Fazenda Peixópolis está entrando no terceiro ano de produção e, conforme explicou, uma piscicultura costuma alcançar maior estabilidade entre o quinto e o oitavo ano, dependendo das condições de manejo. Por isso, entre os próximos passos está o investimento em automação e, principalmente, em reprodução e genética, área que ele aponta como um dos principais desafios para o avanço da produção.
Para o produtor, o próprio resultado da criação é uma das principais conquistas. Ele destaca a possibilidade de acompanhar desde a alimentação dos peixes até a conversão alimentar, a qualidade do produto e o caminho percorrido pelo tambaqui até chegar ao consumidor.
“Uma das coisas que mais me dá satisfação é ver a produção acontecendo, acompanhar a conversão alimentar, a qualidade do alimento que está sendo produzido e saber de onde veio aquele peixe. A gente consegue rastrear todo o processo”, contou.
José Carlos também vê o cooperativismo como uma ferramenta importante para quem trabalha no campo. Segundo ele, a organização coletiva pode facilitar a compra de insumos, ampliar o poder de negociação e ajudar o produtor a acessar condições comerciais que seriam mais difíceis individualmente.
Ao longo dos anos, ele afirma ter acompanhado diferentes experiências de cooperativismo e destaca principalmente a possibilidade de realizar compras em conjunto. De acordo com o produtor, essa estratégia já permitiu reduções de aproximadamente 30% no custo da ração, entre 20% e 25% na compra de sal mineral para a pecuária e de até 40% em alguns produtos utilizados na piscicultura, como biorremediadores.
Para ele, o modelo pode contribuir para reduzir custos e melhorar as condições de negociação dos produtores quando existe organização entre os participantes.
“O cooperativismo é primordial. Quando você consegue fazer uma compra em bloco, você ganha poder de negociação. Mas precisa ser trabalhado de uma forma correta, com honestidade e organização, porque aí o produtor consegue realmente sentir o resultado”, afirmou.
A busca por conhecimento também acompanha o desenvolvimento da Fazenda Peixópolis. José Carlos mantém uma relação antiga com o Sebrae e conta que participou de dezenas de capacitações ao longo dos anos. Além de ter participado de treinamentos, ele também já atuou como instrutor e prestador de serviços em ações da instituição.
Segundo o produtor, os conteúdos de capacitação e as visitas técnicas contribuíram para diferentes momentos de sua atuação no setor. Ele também participou de missões e atividades voltadas ao conhecimento de outros mercados, com viagens ao Panamá, Venezuela e Guiana, e tem uma viagem para a China prevista.
Para José Carlos, o acesso à capacitação e a possibilidade de conhecer outras experiências são importantes para quem deseja desenvolver uma atividade rural de forma mais estruturada.
“O Sebrae tem uma metodologia muito boa e uma equipe muito profissional. As capacitações, as visitas técnicas e as missões ajudam o produtor a enxergar outras possibilidades e a buscar melhorias para o próprio negócio”, afirmou.
Com a produção em fase de consolidação, o produtor pretende continuar investindo em automação, reprodução e genética. A ideia, segundo ele, é ampliar a eficiência da propriedade sem deixar de buscar novas tecnologias e conhecimentos para a atividade.
O Roraima Agroind é uma iniciativa voltada ao fortalecimento das agroindústrias e do agronegócio em Roraima. Em sua terceira edição, o evento busca incentivar a modernização da produção, por meio da apresentação de máquinas, equipamentos e tecnologias, além de promover a agregação de valor aos produtos locais e a realização de rodadas de negócios.
Em 2026, o evento acontece simultaneamente ao I Festival do Tambaqui, de 9 a 11 de outubro, em Alto Alegre (RR), em uma realização conjunta do Sebrae Roraima e da Prefeitura de Alto Alegre.
A programação também valoriza a piscicultura, os produtores locais e a gastronomia regional, com destaque para o tambaqui, uma das espécies importantes para a economia e a cultura alimentar de Roraima. O festival inclui a Rota do Tambaqui, iniciativa que busca estimular a comercialização e dar visibilidade à cadeia produtiva.
A expectativa é receber mais de 3 mil pessoas e movimentar mais de R$ 2 milhões em negócios. A iniciativa pretende ampliar oportunidades comerciais, fortalecer os pequenos negócios, gerar renda e contribuir para o desenvolvimento econômico do município e do estado.
Fonte e imagens: SEBRAE-RR DA ASN RORAIMA– Leia a matéria completa aqui